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Observações afiadas e dicas práticas sobre o mundo das redes sociais. Para quem quer navegar nas tendências com olhar crítico e estratégia.

Há crimes que não nos mancham as mãos de sangue, mas que nos carcomem a alma de uma maneira doentia. São crimes que não fazem o estrondo de uma porta arrombada, mas que se manifestam no silêncio da nossa consciência que se torna muda. São aqueles crimes de omissão, de conveniência, do pequeno pacto que fazemos connosco mesmos quando o conforto se torna mais valioso do que a verdade.
Hannah Arendt, na sua lucidez afiada, deu-lhe um nome - "Em nome de interesses pessoais, muitos abdicam do pensamento crítico, engolem abusos e sorriem para quem desprezam. Abdicar de pensar também é crime!" Com isto, Arendt coloca na nossa frente um espelho e convida-nos a olharmos para o nosso próprio reflexo tantas vezes cúmplice.
Arendt, que mergulhou nos abismos do século XX para compreender como a barbárie se pôde instalar no coração da Europa civilizada, revelou-nos esta ideia desconcertante - o mal, na sua forma mais terrível, não precisa de monstros. Como ela própria disse, "o triste facto é que a maior parte do mal é feito por pessoas que nunca se decidiram a ser boas ou más". Pessoas como nós.. Funcionários zelosos, vizinhos cordiais, cidadãos que cumprem as regras e que, a certa altura, fazem uma troca silenciosa - a sua integridade e a sua ética pela promessa de segurança, de pertença ou de uma vida sem sobressaltos.
E isto não é necessariamente deliberado ou consciente, é na verdade um processo subtil. E isto, normalmente, começa com um cálculo de "interesse pessoal" - o medo de perder o emprego, a ambição por uma promoção, a necessidade de ser aceite, o pavor de criar um conflito que possa ter repercussões negativas a medio ou longo prazo. Para proteger este pequeno reduto de tranquilidade, começamos a ceder. Primeiro, guardamos para nós o que pensamos... Depois, passamos a tolerar o que intimamente nos repugna — o "engolir abusos ou indiferenças". O passo seguinte, e talvez o mais lamentável, é a encenação. O "sorrir para quem desprezamos", o aplauso cúmplice a uma mentira que nos envenena.
Nesse momento, a traição não é apenas ao mundo - é a nós mesmos. É quando a nossa âncora de valores se solta do fundo e nos deixa à deriva na maré dos interesses nossos e alheios...
Hoje, tal como no tempo de Arendt, este crime discreto tornou-se endémico. Na verdade, vivemos todos sob o jugo de uma censura que não vem de cima, mas dos lados. Não é o Estado que nos vigia, mas o olhar dos nossos pares.. do vizinho, do colega. Vivemos em democracia, mas uma democracia fraturada pela polarização - e pensar (diferente) tornou-se um acto de risco. Desviar uma vírgula da cartilha do nosso grupo é o suficiente para sermos excomungados.
É aqui que Arendt também nos advertiu - "As questões morais são demasiado importantes para serem confiadas apenas aos políticos", ou, podemos acrescentar hoje - aos algoritmos e às multidões digitais.
Há aquele cientista que hesita perante dados inconvenientes, aquele artista que suaviza a sua obra para não ofender, o amigo que, numa mesa de café, ouve um comentário intolerante e escolhe ficar em silêncio. Todos eles, nesse instante, abdicam de pensar e, sem se darem conta, tornam-se pequenos cúmplices da erosão do mundo.
Imagino que estarão a questionar porque é que Arendt chama (ao silencio) de "crime"?
Porque pensar não é um passatempo. Pensar é a mais fundamental das responsabilidades humanas. É a sentinela da nossa consciência. O pensamento, para ela, não é apenas lógica, é um diálogo interno constante entre "mim" e o meu "eu". Quando deixamos de pensar, perdemos a companhia de nós mesmos. E, tal como ela nos escreveu - "o sujeito que pensa [...] precisa da companhia dos outros, mas não pode dispensar a companhia de si mesmo".
Abdicar de pensar é, portanto, um acto de auto-abandono. Uma sociedade que se abandona, que elege o conforto pessoal como seu deus, é uma sociedade que se entrega, de mãos atadas, à injustiça. O silêncio dos bons cidadãos não é neutralidade, é o adubo onde o mal floresce.
Hannah Arendt não nos deixou um manual de instruções, mas um apelo à nossa coragem. A coragem de sermos a 《voz dissonante》. A coragem de escolher a nossa integridade em detrimento da nossa comodidade. E claro, é um caminho solitário, muitas vezes ingrato e com penalizações de vários níveis. Mas é o único caminho que nos permite, ao fim do dia, olharmos-nos ao espelho sem desprezo por nós próprios.
Num tempo que nos implora para não pensarmos, para não questionarmos, para nos conformarmos, o maior acto de rebeldia é, simplesmente - pensar. Porque a alternativa, esse silêncio que nos parece tão seguro, é o verdadeiro crime. E a vítima somos todos nós..
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